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COMO SE FORA UM CONTO, é o título de pequenos contos que ao longo do tempo fui escrevendo.
Na sua maioria foram já publicados em jornais e em blogues.
Alguns são inéditos.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

RÁDIO LUSITÂNIA

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SÁBADO 9 DE FEVEREIRO
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VOU ESTAR À CONVERSA NA "RÁDIO LUSITÂNIA CB" , NO PROGRAMA "MÁQUINA DO TEMPO" COM CARMEN DOLORES, DEPOIS DAS 22H30
PODE OUVIR-ME AQUI:
OBRIGADO
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domingo, 23 de dezembro de 2012

O PAI NATAL E O MENINO JESUS

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COMO SE FORA UM CONTO

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Tenho de começar por dizer que não gosto do Pai Natal.
Desde que entrou na minha vida, já lá vão mais de vinte anos, que aos poucos a minha aversão ao personagem, foi crescendo.
Também não será para admirar. O Pai Natal chegou e destronou o meu Menino Jesus. Arrumou-o para um canto de uma gaveta, dentro de uma caixa velha, e não se ouviu mais falar dele.
Com a chegada do Pai Natal, começaram as desavenças natalícias lá por casa. E, pelo que ouço dizer, em muito mais casas por esse mundo fora.
O Pai Natal que na altura começou a andar lá por casa era um Pai Natal rico. O meu Menino Jesus, era um Menino Jesus pobre. Só por aí comecei eu a não gostar do velho de barbas e vestido de vermelho. Começou a luta dos ricos contra os pobres, e o rico ganhou. Não é que tenha ganho grande coisa, mas ganhou. Ganhou pelo menos o lugar que o Menino Jesus sempre tinha tido em minha casa. E com essa vitória começaram a desaparecer os valores que até então nos tinham norteado.
No tempo do meu Menino Jesus, e porque ele, coitadinho era pobre,

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

FUTEBOL, A VIDA DO DIA A DIA



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COMO SE FORA UM CONTO
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Acho o futebol um desporto engraçado. 
Não que alguma vez o tenha jogado, pois que para tal prática era uma perfeita nulidade, mas gostava de ver. 
Na altura, já lá vão muitos anos e era eu sócio do F C Paços de Ferreira com o nº 2022, nunca me esqueci do número, ia com o criado (empregado para todo o serviço e homem de toda a confiança) do meu avô paterno, ou com um tio ou ainda com um primo do lado materno, ver a bola, no campo do Paços e uma ou outra vez no campo do Freamunde. 
O que mais me interessava era o espectáculo à volta das linhas brancas. O que os vinte e dois homens de cuecas, onze de cada lado com camisolas diferentes conforme os lados, e os três senhores de preto (na altura estavam sempre de preto) faziam, correndo atrás de uma bola, não era muito do meu interesse. 
Mas o que os acompanhantes, os adeptos, os simpatizantes de cada uma das equipas em confronto estavam a fazer ou dizer, tinha toda a minha atenção. Eram umas centenas de almas a gritar a plenos pulmões, insultos, desabafos, incentivos e o mais que fosse, para dentro do campo. Às vezes também para fora do campo, para os outros, para os da outra equipa, para os "inimigos". 
Os jogos mais interessantes eram os que punham frente a frente o Paços (de que eu era adepto e sócio por causa da minha família paterna) e o Freamunde (de que eu era adepto, embora não sócio, por causa da minha família materna). 
Em todos os jogos a que assisti, havia num dado momento pancadaria. Os de Paços e os de Freamunde, vilas (à altura destes acontecimentos) que distavam entre si cerca de três quilómetros, eram inimigos figadais. Essa inimizade alastrava-se para fora do campo de futebol chegando ao cúmulo de um jovem de uma das vilas não poder casar com uma jovem da outra.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

AS FRASES DA M...!

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COMO SE FORA UM CONTO
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AS FRASES DA M….!

Vá-se lá saber porquê, dei por mim a visitar na Net o “The Art Museum Toilet Museum of Art”. Por lá se encontram as fotografias das mais variadas casas de banho dos museus mundiais. Desde a mais banal à mais moderna e à mais sofisticada, por lá as vamos apreciando.
Enquanto as via, lembrei-me das maravilhosas (pelo uso que permitiam e pelos ensinamentos que nos davam) retretes públicas que existiam, e algumas ainda existem, cá pela cidade, e que em tempos idos eram muito frequentadas pelos meus concidadãos.  Havia sentinas, em catacumbas no meio da Avenida dos Aliados e no túnel para peões frente à Igreja dos Congregados, havia-as na praia do Molhe e na praia de Gondarém bem viradas para o mar, no meio do Jardim do Passeio Alegre e noutros lugares, todas elas com empregados que procediam à limpeza (sempre imaculadamente limpas) e cobravam entrada (na altura era de cinquenta centavos), um homem para a secção dos homens e uma mulher para a secção das mulheres, onde eles liam o jornal e ouviam um velho rádio a pilhas e elas faziam crochet ou malha, e também mictórios espalhados por muitas ruas do Porto. A juntar a estas, havia também algumas casas de banho públicas, onde se podia tomar um banho completo, havendo ainda uma que funciona em frente à Praça 24 de Agosto. Também as escolas, as universidades, os estádios de futebol, os cafés e restaurantes, os museus e em geral todos os edifícios públicos, tinham para uso dos seus frequentadores vários urinóis e casas de banho.

sábado, 4 de agosto de 2012

SENTE-SE AQUI NO MEU COLO, MAMÃ

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COMO SE FORA UM CONTO

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"sente-se aqui no meu colo, mamã, hoje faço anos"
Suavemente assim o fez. Quase não a senti. A minha mamã está tão levezinha, tão sem ser, tão quase nada. 
Encosto a minha mão, espalmada, na sua cara, sobre a face e a orelha esquerda
"que bom! - disse"
Que bom, pensei enquanto a cabeça da minha mamã se inclinava para o lado da minha mão e ma prendia de encontro ao seu ombro. Já há muito tempo que me não fazia isso
"que bom" - disse eu"
E beijei-a na testa, e encostei a minha testa à dela, e fiz movimentos de carinho com os dedos da minha mão direita. A minha mamã fez mais força com a cabeça, prendendo ainda mais a minha mão de encontro a ela, e sorriu.
Há muito tempo que a não via sorrir, ou falar, ou sequer reagir a um qualquer estímulo que eu lhe desse. A doença tinha-a comido e da minha mamã pouco restava. Qualquer dia nada sobraria mesmo, só a lembrança e a saudade.
"sente-se aqui no meu colo, mamã"
E a minha mamã sentou-se, quase sem que eu a sentisse de tão levezinha que estava. E ali ficamos os dois, um bom bocado, a apreciar o calor que transmitíamos um ao outro.
E eu sorrindo
"até amanhã, mamã"
e ela também com um leve sorriso nos lábios
"até amanhã, meu filho"
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quinta-feira, 12 de abril de 2012

O VIÚVO PROVISÓRIO

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COMO SE FORA UM CONTO
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Sentia-a como a melhor pessoa que alguma vez lhe coubera. A cumplicidade nas diferenças que tinham era enorme. O amor que nutriam um pelo outro era ainda maior.
Reduzido a uma provisória e passageira condição de viúvo, com a cama desfeita de um só lado, com um vazio secreto de que só se dava conta a espaços na noite e na hora do acordar, João vivia os dias triste a cansado, mas só pela condição de ser assim, triste.
As insónias vivia-as sozinho, tal como ela que, no andar de cima nem cama tinha, antes um catre estreito e curto, onde dormia, ou tentava dormir. Ela que era grande, comprida, muito mais do que ele.
"que queres que te faça, ressonas!"
Ele bem que sabia disso, mas não controlava o barulho que desde há alguns anos fazia. Era um barulho com vida própria, senhor do seu nariz e totalmente independente da sua vontade.
"quando deixares de ressonar eu volto a dormir contigo"
O quanto lhe custava aquela viuvez nocturna mas bem compreendida e aceite, e a decisão dela de não estar a seu lado.
"amanhã tenho de trabalhar, não posso perder noites"
E lá iam, cada um para seu lado, ou melhor, cada um para o seu andar, que ela tinha uma espécie de apartamento no andar de cima transformado de uma sala que tinha uma vista de encher o olho, e que por causa do calor e da luz estava na maior parte das vezes na penumbra.
"eu queria ficar a teu lado, mas ressonas. queres que eu não durma?"
Maldito ressonar que desde há anos lhe atormentava a existência. Mais a dela, claro, que do ressonar ele se não dava conta, só das implicações. Já tinha tentado quase tudo, menos parar de respirar. Tinha ido a médicos, fizera testes e exames, mas de bons resultados, nada.
"vamos trocar meu amor, dormes tu na cama e eu lá em cima"
Que não, que ele é que precisava da cama. Ela bem que podia ficar lá por cima. Já se tinha habituado e quase que já gostava que assim fosse.
"mas..."
O amor que cada um sentia fazia-os proceder assim. Um e outro, provisoriamente viúvos, pontualmente divorciados, separados durante horas em conjunto e comunhão de ideias e de vivências, cheios de amor um pelo outro.
João sofria aquela viuvez em silêncio, sem nada lhe dizer. Ela nem se apercebia que o sofrimento dele poderia ser porventura maior do que ela supunha. Que falta lhe fazia o poder velar-lhe o sono, o poder cuidar dela durante a noite, medir-lhe a respiração, poder olhá-la no seu dormir calmo, poder sentir-lhe o corpo descontraído, poder tocar-lhe ...
Ele não queria ser viúvo nem por um minuto, e era-o todas as noites, durante a noite e as manhãs dos fim-de-semana.
"preciso de descansar. não me acordes"
Que ela precisava de descansar, pelo menos nessas alturas.
A vida nunca lhe fora fácil, e continuava a não o ser. Todos lhe cobravam favores, trabalhos, mimos. Todos viam nela nada mais que uma "Cinderela".
E que bem que João a entendia. O amor que lhe tinha era muito maior que aquela sensação má da separação temporária e provisória. Bem que podia ser diariamente viúvo por umas horas. Afinal eram só umas horas de cada vez e na maior parte delas ele estava a dormir.
Um dia, sem que ele, viúvo temporário e pontualmente divorciado o decidisse, o ressonar parou, e o movimento inconsciente das pernas, e o não conseguir estar quieto mais que breves minutos, e as comichões,
e o respirar.
Sozinho, sem ninguém dar por isso.
"adeus meu amor, até já"
Estranhamente não lhe custou nada aquela ocorrência, não ficou triste ou desalentado, só um pouco conformado com a evidência ..., já estava habituado àquela viuvez.
E também lhe não custou porque não foi um adeus definitivo, antes um breve e longo adeus, uma vez que ninguém poderia alguma vez separar para sempre estes que de amor sempre se alimentaram.
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quarta-feira, 7 de março de 2012

NO BAR, DEPOIS DO JANTAR

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COMO SE FORA UM CONTO
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Entrou na sala do bar como se ele lhe pertencesse. Olhar altivo e fixo no fundo da sala, porte solene, pisar calmo e senhora de si.
Os olhares dos presentes que estavam entretidos com um pouco de tudo, mudaram, rodaram e poisaram nela, correndo-a de alto a baixo e pararam nos sapatos bicudos e de bom corte e boa pele, subiram de novo, agora muito devagar, abrandando na zona dos joelhos que a saia travada deixava a descoberto, subiram até às coxas, onde voltaram a parar, e continuaram a caminhada, lenta e demoradamente.
Enquanto isso, na sala imperava um silêncio profundo e só se ouvia o toc toc toc compassado, provocado pelo bater firme dos tacões, no chão de mármore.
Os olhares lascivos e os de inveja, dos homens e das mulheres presentes não só lhe poisavam no corpo como lhe seguiam o percurso. As pernas, as ancas, a cintura, e o caminho para os seios altivos e fortes, disfarçados pela blusa branca, só estranhamente não sentiam o peso que lhes caía em cima. O colo, o pescoço alto, os cabelos compridos que emolduravam uma cara linda, e os olhos de um castanho profundo, também nada sentiam. Senhora de si, passou por entre todos e foi sentar-se num banco do fundo do balcão. 
Mesmo encostada à parede, longe dos olhares dos basbaques, estava uma outra mulher, bela como a primeira, que a aguardava. Um beijo, outro, um olhar comprido e uma mão na outra.
À volta delas o pouco ruído da sala desapareceu por completo e por breves instantes. Os olhares por momentos atentos à passagem da desconhecida, desviaram a atenção para o que os entretinha antes e os sons normais da sala, regressaram.
Só o olhar de uma outra mulher, ainda muito nova, que se sentava sozinha numa mesa junto à janela, continuou presa ao par que agora estava junto, com uma lágrima a querer saltar dos seus olhos verdes, cor da água.
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A VIDA DEPOIS DA VIDA

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COMO SE FORA UM CONTO
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Gosto de escrever.
Escrevo muito, a mais das vezes só na folha guardada no mais profundo do meu pensamento. Invento histórias, diálogos, cenas e cenários, escrevo poemas de amor, de escárnio e de mal dizer, comento situações, acções, coisas do dia-a-dia e palavras ouvidas aqui e ali, e a grande maioria nunca passa pela caneta nem fica imprimida num papel.
Escrevo em mim e dialogo comigo constantemente, pensando que ao menos posso escrever, mas para o passar a letra de forma falta ainda uma eternidade, mesmo tendo tempo de sobra.
Alarmo-me com a perspectiva de que mais cedo ou mais tarde esta minha capacidade se esgotará, e o meu stock de ideias desaparecerá sem que tenha tido a oportunidade de o dar a conhecer. Um dia morro e depois de morto já não escreverei.
Estes pensamentos angustiam-me. A morte angustia-me. Se estivesse a sonhar, quereria acordar, melhor, acordava-me para não me sentir assim. Será que depois de morrer poderei continuar a escrever, a inventar histórias, diálogos, cenas, cenários, e a poder fotografar a vida tal e qual ela seja naquele momento? É que eu também gosto de fotografar, de perpetuar momentos e de capturar instantes. Como seria bom poder continuar a escrever e a fotografar.
Quando morrer irei para o Céu? Por certo que sim, que tenho trabalhado para isso. Quer dizer, tenho trabalhado mais ou menos. Se calhar mais menos do que mais. Se calhar não vou, mas gostaria muito de ir.

domingo, 24 de julho de 2011

UM "MENINICO" COMO OUTRO QUALQUER


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COMO SE FORA UM CONTO
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No segundo ano da segunda metade do século passado, em pleno estio, o meu avô Júlio recebeu em sua casa o sétimo neto dos nove que acabaria por ter. O pimpolho que mais tarde acabaria por vir a ser este vosso escriba, recebeu loas de toda a família e de mais quem fosse. Minha avó, mulher para quem os filhos e os netos eram tão-somente os melhores do mundo e arredores, fez uma propaganda enorme no que à beleza do menino dizia respeito. Afinal era o primeiro, e acabaria por ser o único a poder continuar o nome da família.
Naquela altura, muito embora já sem a força de outros tempos, meu avô era ainda uma das figuras importantes da vila. O terceiro da hierarquia lá do sítio.
Solicitador encartado, fazia o papel de advogado em muitas situações, já que por aquelas bandas não havia profissionais daquele ofício. Tinha escritório em cinco comarcas em redor, e diziam as más-línguas, que casa montada em cada uma delas. Afilhados eram mais que muitos, e todos traziam consigo o nome de meu avô. Havia até quem dissesse que o apadrinhamento os fazia serem muito parecidos com ele. Tinha sido fundador dos Bombeiros da Vila e o seu primeiro Presidente, e era muito bem considerado por toda a gente. Amigo de bem comer e conhecido também pela sua bondade e largueza de mãos, cedo delapidou toda a fortuna amealhada ao longo de uma vida de trabalho, por via dos pedidos que constantemente lhe faziam, que sem excepção sempre satisfazia, fossem eles de dinheiro, de terras, de árvores ou de animais.

sábado, 28 de maio de 2011

UMA HISTÓRIA SEM FIM

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COMO SE FORA UM CONTO
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Ia eu por ali a passar, subindo e descendo por uma ladeira acima, quando ouvi dois tiros. Pum!, Pum!. Horríveis, assustadores, medonhos.
Juntou-se muita gente, muita gente, muita gente, e eu também, ansioso, na esperança de ajudar a solucionar ou até mesmo resolver de uma vez o acontecido. Não se sabe se há mortos, feridos ou estropiados.
Os tiros, pum!, pum!, foram ouvidos a muitas léguas, e as gentes chegavam em catadupa.
O pum, pum dos tiros, terá chegado também aos ouvidos da autoridade que, lesta, enviou um agente para, de imediato, tomar conta da ocorrência.
Chegou o polícia e disse: - Está tudo preso!
- Menos eu, senhor guarda, eu não, disse eu.
- Então porquê?, retorquiu o agente da autoridade.
- Porque eu sei tudo!
- Sabe tudo?
- Sei sim senhor.
- Ora então conte lá!
- Olhe senhor guarda, disse eu pigarreando e aclarando a voz,

domingo, 1 de maio de 2011

O DIA DA MINHA MAMÃ



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COMO SE FORA UM CONTO
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De mão dada, passinhos curtos como convém, lá passeamos pelo jardim que ladeia a avenida,
a minha mamã e eu.
Não a minha mãe como agora se usa.
Fui habituado a trata-la por mamã. Nessa altura, a da minha juventude e aprendizagem da vida, de entre as minhas relações só dois dos meus amigos tratavam as respectivas mães por mãe.
“Ó mãe … “, diziam, e essa maneira de as tratarem fazia-me impressão. Parecia-me duro, ainda hoje me parece de uma excessiva dureza, ou melhor dito de uma excessiva falta de doçura. Mas aceitava, claro, como hoje aceito, embora hoje tudo seja diferente e esse tratamento se tenha banalizado.
Para mim, no entanto, eles eram diferentes de nós, conquanto amigos até hoje. Até no restante das suas maneiras de falar eu notava diferenças. Tinham uma pronúncia diversa da minha e tudo. Tinham nascido lá mais para o sul do País. Um era ribatejano, do meio dos cavalos e dos touros, e outro beirão, do sopé da serra grande. De qualquer modo o chamar a nossa mãe por mãe estendeu-se a todo o País e hoje, chama-la por mamã, quase não é “bem”. É lamechas, démodé, velho, antigo, diferente.
Não para mim. Para mim a minha mamã será sempre
a minha mamã.
Da mesma forma que o meu papá sempre foi o meu papá, e os meus filhos também me tratam assim, papá.
Seja como for, lá seguíamos de mão dada, a minha mamã e eu, à sombra dos plátanos e das tílias, devagarinho que a minha mamã já não consegue andar depressa, e só anda com ajuda.
Às vezes, muitas vezes, não sei se ela sabe que sou eu, o filho da minha mamã, que ali vai com ela, mão na mão. Se calhar já quase nunca sabe, mas sei que lhe sabe bem a minha mão, a minha voz, a minha presença.
Está pequenina, a minha mamã. Não que alguma vez tivesse sido grande, mas agora, mais curvada, mais encolhida, está mesmo pequenina, e quando a vejo assim, quando olho para os seus cabelos quase totalmente brancos e para os seus olhos semiabertos, não raras vezes me apetece pegar-lhe ao colo, afagá-la, falar-lhe baixinho ao ouvido e levá-la para um sítio bom, suave, acolhedor, onde eu soubesse que a minha mamã se fosse sentir muito bem. Mas não o faço pensando sempre no quanto seria esquisito fazê-lo em plena rua, com toda a gente a olhar e a não entender o que me teria levado a fazer tal.
Está velhinha a minha mamã.
Os anos já lhe pesam e o fim da sua viagem e a estação de destino não estarão já longe. Começou a sua caminhada final logo após a partida do meu papá, já lá vão vinte anos, e nunca mais se recompôs. Se de início se notava pouco, com o decorrer dos anos começou a ser evidente a sua vontade de se lhe reunir com brevidade.
Tenho saudades da minha mamã.
Tenho saudades do seu fino humor que a todo o momento se revelava em toda a sua pujança. Tenho saudades de a ver cuidar dos outros com um desvelo enorme. Tenho saudades de conversar e ouvir os seus conselhos, de a saber a única pessoa no mundo que realmente me conhecia e me compreendia e aceitava e…
Oficialmente, este é o dia das mamãs, da minha mamã. Não é o dia que ela sempre gostou, esse era em Dezembro, mas no fundo, o dia da minha mamã é cada um dos que passam, o de ontem, o de hoje e o de amanhã.
E de mão dada, lá continuamos o nosso passeio, à sombra dos enormes plátanos e das não menos grandes tílias do jardim que ladeia a avenida, passinhos curtos como convém.
Eu, curvado sobre a minha mamã sussurrando-lhe palavras doces ao ouvido, ela, com um sorriso de felicidade nos lábios.

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O MENINO E O PAPAGAIO II


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COMO SE FORA UM CONTO
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Rodava sem parar fazendo desenhos lindos e estranhos, comandado pelas mãos pouco sábias do menino, e sentia-se feliz quando, olhando para baixo lhe notava o sorriso no rosto concentrado, de vez em quando dava-lhe um safanão como que para lhe lembrar que era ele que mandava, mas a culpa não lhe pertencia e não era assim que ele queria, era do vento que por vezes soprava forte, e quando assim era, as mãos do menino sofriam com a sediela a aperta-las cada vez mais e o sorriso transformava-se num misto de perseverança e ainda de mais concentração até que amainado o vento o voo era simples e o sorriso voltava mostrando a felicidade que lhe enchia a alma, que era a primeira vez que comandava sozinho depois das lições domingueiras do pai, que orgulho ele iria ter quando lhe mostrasse como era capaz e que lindas figuras conseguia fazer, e o papagaio voador olhava-o e ajudava-o fazendo mais uma pirueta e pensando em como é bom conseguir fazer sorrir uma criança. 

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(QUADRO DE ADÃO CRUZ - TAMBÉM PUBLICADO NO BLOGUE ESTROLÁBIO)

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O MENINO E O PAPAGAIO I

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COMO SE FORA UM CONTO
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A vontade comandava-lhe o sonho e este regia-lhe a vida, que nunca fora fácil nem doce nem bonita, e enquanto pensava olhava a sua mão frágil que com a guita bem esticada segurava o papagaio voador que bem lá no alto rodopiava sem parar, olhava para cima e pensava em como gostaria de se ver lá em cima, ouvindo o ruído suave do vento, um ou outro pio de uma qualquer companheira de viagem e vendo tudo na sua real dimensão, tudo pequenino, muito pequenino, quais formiguinhas na sua labuta diária, mas não era assim, as coisas tinham o tamanho que tinham, e como que para lhe provar isso, de vez em quando o vento soprava mais forte e ele quase não conseguia segurar o cordel que lhe magoava as mãos, ora uma ora outra, que se iam revezando no esforço, com a mestria a que já estava habituado, que sempre assim fora toda a vida, sempre tivera que lutar para ter alguma coisa e a luta por vezes era renhida embora fosse bom chegar ao fim e ganhar, não como desta vez em que se sentia perdido e tonto, sozinho com o papagaio pela primeira vez, que quase não conseguira pô-lo no ar, e era domingo como das outras vezes, mas ao contrário dessas estava só, com uma lágrima por companhia.

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aventar

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O MEU DIA DE REIS E O NATAL

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COMO SE FORA UM CONTO
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Durante muitos anos, nos meus tempos de ganapo e mais tarde de adolescente, a noite de 5 de Janeiro era uma perfeita e completa chatice.
Meu pai, não dispensava ao jantar, o bacalhau e as batatas e as couves e o polvo cozidos, e o vinho tinto (que eu não podia beber por causa da idade, só a água me era permitida) e o pão e os doces (que eu detestava) e mais nada! Em tudo igualzinho aos jantares do dia 24 e do dia 31 de Dezembro. Chamava-lhes a consoada de Natal, de Fim de Ano e de Reis. O problema era que tal como a consoada do dia 31, esta não tinha as prendas do Menino Jesus no sapatinho, e para além disso e também ao contrário desta e da do dia 24, não era feriado no dia seguinte.
Era, como disse, uma chatice (termo que na altura se não podia dizer, que era feio, usando-se ao invés a palavra aborrecimento, muito mais suave e que a meu ver não traduzia devidamente a real chatice que tudo aquilo era). “Se ainda nós fossemos espanhóis que eles ao menos tinham as prendas nos Reis e as nossas já há muito estavam estragadas ou nós cansados de brincar com elas uma vez que nessa época era só uma prendita para cada um”, ouvi-me eu a dizer uma ou outra vez sem saber o que dizia, que isto na altura era tudo muito complicado com a peseta a valer metade do valor  escudo, e os maus ventos que se dizia que de lá vinham, e os maus casamentos e tudo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A SENHORA MARGARIDA - I'VE GOT DREAMS TO REMEMBER -

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COMO SE FORA UM CONTO
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Hoje é Domingo. Faltam muito poucos dias para a noite de consoada deste ano.
Estou em minha casa, em sossego, ouvindo música, olhando distraído a televisão que, sem som, debita, num qualquer noticiário, imagens de desgraças, umas atrás das outras.

O meu pensamento voga, ora entre os sons mágicos de Tchaikovsky ora pelas imagens que a caixa mostra, ora ainda pelos acontecimentos últimos. Nestes, pára constantemente. Aos poucos tudo desaparece e a época natalícia vai-se aproximando e envolvendo o meu pensamento. Lembro-me da tradição que, mesmo os que se dizem não ligados à religião católica, todos vão mantendo.

Uma das tradições que vou teimando em manter, é o jantar do dia vinte e quatro de Dezembro, a Ceia de Natal. Por tradição, juntamos a família nessa noite, e na casa de seja quem for designado para o fazer, comemos o bacalhau cozido, acompanhado com batatas, couves e polvo e regado com o melhor azeite que for possível comprar. O vinho, costuma ser o maduro tinto, do Douro claro, ou então Verde, também tinto, de Ponte de Lima.

domingo, 19 de dezembro de 2010

MAIS UM DRAMA, ESTÁ FRIO

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Brrrrr … Que frio!

Mais um drama se abateu sobre os cidadãos portugueses. Já não bastava a recessão que teima em não acabar, veio agora o frio.

Nestes dias, a temperatura desceu muito. Os termómetros marcam valores abaixo de zero em muitos locais do país, e parece que vai continuar assim mais algum tempo. Imagine-se que até no Algarve faz frio, em Dezembro, a meio do mês, quase com o Inverno a entrar-nos pelas portas dentro.

O que parece ser um facto é que Portugal tirita de frio.

As rádios e as televisões desdobram-se em reportagens e entrevistas com os habitantes de Bragança, de Chaves, da Guarda ou da Covilhã, e até de Faro. Vão à procura de saber como se sobrevive a tamanha calamidade. Em todo o lado as respostas são as mesmas. Não há grandes variações. – olhe menina (normalmente são meninas que fazem estas reportagens), pomos mais uma camisola ou um cachecol, acendemos a lareira ou ligamos um aquecedor, andamos mais depressa quando estamos na rua, e já está. De manhã vamos à janela e se está mais fresquito, agasalhámo-nos melhorzinho. A vida é assim, sabe?!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A MERCEARIA DO SENHOR JANEIRA

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COMO SE FORA UM CONTO
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Dia a dia dou por mim a beber a minha cidade, sem sofreguidão, saboreando cada momento, cada pessoa, cada rua, cada viela, avenida ou alameda.
Aprecio o sol coado pela suave bruma, engulo com satisfação os ditos, os palavrões, a calma do senhor que está sentado num banco de jardim a ler o jornal, ou a senhora atarefada que com o saco meio cheio vem da mercearia.
Com muito vagar, sinto o tempo a passar pelo meu corpo, andando para trás, e revejo a vida da minha rua na altura em que eu era pouco mais que adolescente e olhava tudo e todos, julgando que os não via.
Na minha rua havia de tudo, gente de todas as classes sociais e lojas e fábricas e tudo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A EPOPEIA DAS FRANCESINHAS NAS INVASÕES FRANCESAS

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COMO SE FORA UM CONTO
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I
Vivia-se no ano da graça de 1809 e o mês de Junho.
Soult, General e mais tarde Marechal, regressava a casa triste, acabrunhado e abalado com a derrota. A bem da verdade não tinham sido os Portugueses a vencê-lo, tinham sido os Ingleses, mas isso era ainda uma desonra maior. Perdera fama, prestígio e muita gente nesta campanha. E só fora ‘dono’ da cidade pouco mais de dois meses. E, diga-se, de uma cidade destroçada pela recente tragédia da Ponte das Barcas, de que só ele tinha sido o responsável. Tinha sido muito pouco tempo para que a cidade lhe tivesse perdoado ou pelo menos passado a ignorar a sua responsabilidade de invasor. Só tinha podido andar pela cidade nas alturas em que estivesse escoltado pelos seus mais próximos guardas pessoais.
Era de noite e o General tinha fome.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

VÍGAROS QUE MERECIAM SER PRESOS

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COMO SE FORA UM CONTO
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Quem nos disse que já sabia o que nos ia acontecer? Todos e mais os outros!
Há muitos meses, anos até, que se ouve nas ruas, nas mesas de café, com vozes baixas e medrosas mas também em frases inflamadas e ditas bem alto, a revolta surda das gentes anónimas. E no entanto… !
Em nenhum momento o povo Português teve qualquer tipo de dúvida (excepto os mandantes deste pobre País e também os que querem vir a sê-lo, mas esses não pertencem ao povo) de que a Justiça em Portugal não funciona nem funcionará tão cedo, de que ninguém irá para a cadeia no famoso caso Casa Pia, da mesma forma que as dúvidas não existem sobre o mesmo desfecho em qualquer dos grandes casos de Justiça que ainda hoje correm nas barras dos tribunais.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ROSA DE PORCELANA PINTADA

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COMO SE FORA UM CONTO
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No princípio do século vinte os hotéis e pensões tinham quartos para alugar que não possuíam quarto de banho. Este situava-se normalmente ao fundo do corredor e servia todos os quartos desse andar. Havia até pensões que tinham um só quarto de banho para os diversos andares dos quartos.
Na minha família havia um Padre. Quase todas as famílias tinham pelo menos um. Este, pelos anos vinte do século, era já entrado na idade. Teria bem mais de sessenta anos.
O Tio Padre, fazia palestras e orava em muitos locais para onde era convidado. Um dia teve de se deslocar a Chaves, em pleno Inverno, para falar, a convite de uma qualquer organização. Foi de Paços de Ferreira, onde residia, para Chaves, de charrete, como era hábito naquelas alturas.
Chegou a Chaves já o dia tinha acabado