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COMO SE FORA UM CONTO, é o título de pequenos contos que ao longo do tempo fui escrevendo.
Na sua maioria foram já publicados em jornais e em blogues.
Alguns são inéditos.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ROSA DE PORCELANA PINTADA

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COMO SE FORA UM CONTO
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No princípio do século vinte os hotéis e pensões tinham quartos para alugar que não possuíam quarto de banho. Este situava-se normalmente ao fundo do corredor e servia todos os quartos desse andar. Havia até pensões que tinham um só quarto de banho para os diversos andares dos quartos.
Na minha família havia um Padre. Quase todas as famílias tinham pelo menos um. Este, pelos anos vinte do século, era já entrado na idade. Teria bem mais de sessenta anos.
O Tio Padre, fazia palestras e orava em muitos locais para onde era convidado. Um dia teve de se deslocar a Chaves, em pleno Inverno, para falar, a convite de uma qualquer organização. Foi de Paços de Ferreira, onde residia, para Chaves, de charrete, como era hábito naquelas alturas.
Chegou a Chaves já o dia tinha acabado
havia muito tempo, e dirigiu-se a uma pensão que ele conheceria bem, e onde já tinha quarto reservado. Jantou e recolheu-se.
Algum tempo depois, já em trajes de dormir, imagino-o eu em camisa branca e gorro por causa do frio, teve vontade de urinar. O frio era tanto que não lhe apetecia nada deslocar-se pelo corredor até à casa de banho.
Usava-se na altura e ainda se usou durante muitas décadas, um pote em cada quarto para utilizar sempre que as necessidades fisiológicas apertassem. Procurou-o por baixo da cama e como não o encontrou percorreu o quarto, que era pequeno, de ponta a ponta, não se esquecendo de procurar dentro do guarda-fatos, nas gavetas do pessiché, e por baixo da mesa de cabeceira. Nada! tinha levado sumiço. E ele apertadinho de todo, e o frio que apertava, que em Chaves, no Inverno, a coisa é dura.
De um modo ou de outro, o meu Tio Padre lá conseguiu resolver o seu problema.
De manhã, lavou-se na bacia que estava no quarto, usando para tal a água quase congelada que já lá estava e que ele havia despejado no dia anterior de numa jarra de porcelana que tinha uma rosa pintada, limpou-se a uma toalha de linho que lhe tinham colocado no quarto para esse efeito, desceu para tomar o pequeno almoço, pagou a estadia e abalou para o seu destino.
Horas de pois, a empregada da pensão entrou no quarto para as limpezas normais e reparou que em cima do pessiché estava  a jarra da água com um bilhete encostado e que tinha qualquer coisa escrita nele. A pobre da rapariga não sabia ler, o que era comum nessa altura, e desceu as escadas em passo de corrida dirigindo-se ao dono da pensão.
- Ó se Maneli, o sô Padre esqueceu-se disto. Estava encontado à jarra de porcelana, a que tem a rosa pintada, que o senhor mandou colocar lá no quarto.
- Mostra lá rapariga.
A moçoila entregou-lhe a folha de papel, o sr Manuel colocou os óculos na ponta do nariz, e leu:
Rosa de porcelana pintada
Perfume não pode ter
Aqui deixo a minha graça
E o perfume do meu ser

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2 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  2. Muito interessante conto que retrata bem a forma de viver naquele tempo.Gostei.

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