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COMO SE FORA UM CONTO, é o título de pequenos contos que ao longo do tempo fui escrevendo.
Na sua maioria foram já publicados em jornais e em blogues.
Alguns são inéditos.

segunda-feira, 19 de Julho de 2010

A TIA

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COMO SE FORA UM CONTO
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Ter tios e tias, qualquer um tem, ter tios e tias como se fossem pais, é a sorte suprema, de que poucos se podem gabar hoje em dia!
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A tia, simplesmente tia, é uma das irmãs do meu pai. A Matriarca da família.
Havia outras, e outras ainda que não sendo irmãs eram igualmente tias. Para mim, havia a tia A, a outra tia A, a tia E, a tia H, a tia L e ainda outra que nunca conheci. Todas elas com nome, excepto esta tia. A Tia!
De todas, é a única que felizmente ainda anda por cá. Por isso, agora, é na verdade a tia. A minha tia. Minha e também de todos os outros sobrinhos que tem, e para quem é também e simplesmente, a Tia!
Pois a minha tia, a única que ainda tenho, sempre foi uma segunda mãe para todos os sobrinhos. Mesmo, e em especial, para
uns quantos idiotas, que agora a ignoram e lhe viram a cara se por ela passarem na rua. O quanto a senhora deverá sofrer, quanta tristeza sentirá, de cada vez que se confrontar com essa situação, ou mesmo de cada vez que pensar nela.
A minha tia casou tarde. Por essa razão a possibilidade de ter filhos próprios foi nula, e os sobrinhos que já assim eram, passaram a ser, ainda mais filhos.
A casa em que sempre habitou até alguns anos atrás, era a casa de todos, sem distinções e sem perguntas. Sobrinhos, sobrinhas, mulheres e maridos destes e destas, filhos dos sobrinhos e o mais que pudesse ser, entravam pela casa dentro como se fora a própria, sem pedir licença, bastando só beijar aquando da chegada e dizer, cheguei, cá estou! Havia sempre comida, bebida, um ou outro mimo, dependendo qual fosse o sobrinho a que fosse dirigido (o meu mimo era o estrelar quase imediato, pela senhora Margarida, de dois ovos), e boa disposição.
Para se imaginar o quanto a minha tia tinha de apreço pelos sobrinhos, um dia comprou um apartamento numa cidade soalheira e de temperatura amena todo o ano, para fugir das agruras do frio invernal do planalto onde vivia. Sendo na altura já casada, em conjunto com o meu tio, decidiram que durante os meses de estio, a casa serviria para que os sobrinhos pudessem beneficiar dela. Quase quatro meses destinados à sobrinhada.
Como disse, casou tarde. Decisão repentina e que apanhou toda a família desprevenida. Em muito poucas semanas passou a ser uma jovem casada e feliz. O marido, olhado de soslaio durante algum tempo por todos, mostrou-se em pouco tempo, um homem digno da minha tia, correcto, honesto e boa pessoa, apesar do seu feitio duro e difícil. Mas, quem não tem coisas no seu?
A partir dessa altura, a tia, que sempre foi singular para todos nós, passou a plural. Passaram a ser designados por “os tios”. Sem nomes! Também ele, o agora tio, era como ela, sem nome. Simplesmente Tio! Para mim, havia o tio A, o tio M, o outro tio M, o tio S, o tio R, e ainda outro que nunca conheci, todos com nomes, e agora tinha passado também a haver “o tio”.
Os tios, não passaram a ter atitude diferente da que tinha a tia. Nada mudou!
Os anos foram passando e os tios lá vão estando na sombra, olhando por nós na medida do que lhes é possível. Sem interferir em nada. Estando lá, simplesmente.
Podemos estar meses sem aparecer, como é o meu caso, sem falar nem nada, podemos virar-lhes as costas como é o caso de alguns idiotas, podemos estar lá sempre metidos ou convidá-los para nossa casa com assiduidade.
Eles estão lá! Como se tivéssemos falado com eles no dia anterior.
Como sobrinho não serei bom. Serei até mau aos olhos de muita gente. Mas os meus tios têm sobrinhos bons, que eu sei. De qualquer modo, sou assim, sinto em silêncio, escondido. Só vou, se chamado - não procurando reconhecimento ou palavras bonitas - ou se souber que precisam de mim. Mas para os tios, isso não tem importância, porque não deixei de ser sobrinho, quase filho, do mesmo modo que todos os outros sobrinhos são quase filhos, mesmo os idiotas.
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São assim os meus tios. São assim os tios como deve ser. À moda antiga, à moda das famílias tradicionais. Tios a sério, à moda das boas pessoas.
Todos nós temos ou tivemos em algum momento, tios e tias. Os sortudos como eu, têm ou tiveram tios assim. Tios que se importam, tios/pais. Mas eu sei que há poucos. Eu sei que a maioria não é assim. Eu sei que poucos tiveram esta dose de felicidade.
Um dia, se esta tia se vai, deixo de ter tias. Passo a ter só tios. Um com nome e outro sem ele. De qualquer forma não haverá mais quem, de longe, olhe por nós. A não ser esta, lá de cima.
Bem que eu gostaria de poder pensar que, num futuro qualquer, os meus sobrinhos pudessem pensar em mim, da mesma forma que eu penso na minha tia.

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